terça-feira, 1 de julho de 2008
Cartas Russas
A Confissão de um Vagabundo
Nem todos sabem cantar Não é dado a todos ser maçã Para cair aos pés dos outros. Esta é a maior confissão Que jamais fez um vagabundo. Não é à toa que eu ando despenteado, Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros. Me agrada iluminar na escuridão O outono sem folhas de vossas almas, Me agrada, quando as pedras dos insultos Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento. Então limito-me a apertar mais com as mãos A bolha oscilante dos cabelos. Como eu me lembro bem então Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe, Que pouco se importam com meus versos, Que me amam como a um campo, como a um corpo, Como à chuva que na primavera amolece o capim. Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos A cada injúria lançada contra mim. Pobres, pobres camponeses, Por certo, estão velhos e feios, E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano. Ah, se pudessem compreender Que o seu filho é, em toda a Rússia, O seu melhor poeta! Seus corações não temiam por ele Quando molhava os pés nos charcos outonais? Agora ele anda de cartola E sapatos de verniz. Mas sobrevive nele o antigo fogo De aldeão travesso. A cada vaca, no letreiro dos açougues, Ele saúda à distância. E quando cruza com um coche numa praça, Lembrando o odor de esterco dos campos nativos, Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos Como a cauda de um vestido de nooiva. Amo a terra. Amo demais a minha terra! Embora a entristeça o mofo dos salgueiros, Me agradam os focinhos sujos dos porcos E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos. Fico doente de ternura com as recordações da infância. Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril, Quando o nosso bordo se acocorava Para aquecer os ossos no ocaso. Ah, quantos ovos nos ninhos das gralhas, Trepando nos seus galhos, não roubei! Será ainda o mesmo, com a copa verde? Sua casca será rija como antes? E tu, meu caro E fiel cachorro malhado?! A velhice te fez cego e resmungão. Cauda caída, vagueias no quintal, Teu faro não distingue o estábulo da casa. Como recordo as nossas travessuras, Quando eu furtava o pão de minha mãe E mordíamos, um de cada vez, Sem nojo um do outro. Sou sempre o mesmo. Meu coração é sempre o mesmo. Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos. Estendendo as esteiras douradas de meus versos Quero falar-vos com ternura. Boa noite! Boa noite a todos! Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo... Eu sinto hoje uma vontade louca De mijar, da janela, para a lua. Luz azul, luz tão azul! Com tanto azul, até morrer é zero. Que importa que eu tenha o ar de um cínico Que pendurou uma lanterna no traseiro! Velho, bravo Págaso exausto, De que me serve o teu trote delicado? Eu vim, um mestre rigoroso, Para cantar e celebrar os ratos, Minha cabeça, como agosto, Verte o vinho espumante dos cabelos. Eu quero ser a vela amarela Rumo ao país para o qual navegamos.
Siérguei Iessiênin (tradução de Augusto de Campos)
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Um comentário:
a velhice também fez o meu gato resmungão, e com a estranha mania de mijar em lugares inóspitos, alhures. mas isso não vem ao caso. importa ser a vela amarela rumo ao país para o qual navegamos. que bonito ficou isso no português, não?...
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